agosto 05, 2016

Comportamento: Ageless

Nem há um século, a maturidade tinha peso social e era profundamente desejável, agora parecemos todos obcecados pela juventude – o que mudou? Primeiro, a nossa maneira de envelhecer.


"Hoje sabe-se que o cérebro só está totalmente desenvolvido na entrada dos 20 anos", Cristina Sousa Ferreira, psicóloga e psicoterapeuta, lança a primeira pedra. Sentirmo-nos "adultos", na acepção clássica (e muitas vezes enfadonha) do termo, deixou de ser uma meta definida. Já passei os 40 e os meus amigos não têm idade, vão dos 20 aos 60, o ano em que nasceram interessa menos do que a sua mentalidade aberta para o mundo. A verdade é que, alguns de nós, não têm simplesmente uma data e, à chegada do que se costumava chamar meia-idade, sorrio perante a limitação do rótulo e da ideia que tinha do que seria chegar aqui. A vida que levamos, mais saudável e consciente, a par da evolução tecnológica, das melhores condições de higiene, saúde, alimentação, aumentam a nossa longevidade. E o nosso aspeto. E a nossa cabeça: já ninguém tem de cumprir à risca um papel social pré-definido e agir de acordo com essa expectativa. Hoje "os 50 são os novos 35, uma mulher de 60 parece ter 40 e poucos anos! E o mesmo acontece com os homens", diz Carlos Ferreirinha, consultor de marketing para empresas em São Paulo, sentado connosco num banco de corredor no ISEG, em Lisboa. "Há um espírito de jovialidade – não é ser jovem e não é juventude –, mas um espírito que mudou muito o que se entendia por envelhecer: as pessoas estão a envelhecer jovens, são ‘envelhecentes’."

O próprio conceito de jovem é relativamente jovem. No século XVIII, Rousseau e Goëthe escreviam sobre a volatilidade e a melancolia dos adolescentes, mas estes não viveram o que hoje chamamos infância, eram uma importante força de trabalho (nomeadamente na revolução industrial), e o importante e respeitável era o adulto. Até aos anos 60 do século XX, e depois das Grandes Guerras, o aumento do consumo fez-nos olhar para dentro de casa, ao mesmo tempo que os movimentos pelos Direitos Humanos e as revoluções estudantis, simbolizadas pelo maio de 1968, evidenciaram o poder de mudança dos jovens, já estilizadas em tribos como os teddy boys, na esteira revolucionária do rock ‘n’ roll. Jon Savage, um dos teóricos do punk, escreveu vários livros sobre a juventude, principalmente a mais rebelde, a que opera mudanças e inspira a Moda. Em Teenage: The Creation of Youth 1875­-1945 escreve que os jovens são "o expoente psicológico dos nossos tempos: vivem o agora, procuram o prazer, têm fome de consumo e personificam uma nova sociedade global onde a inclusão social é concedida". Diz que somos todos, de certa maneira, ainda adolescentes. Em 1898, G. Stanley Hall definia-os no período que vai dos 12 aos 25 anos, agora parece não ter fim à vista: envelhecemos com subtileza.

A Moda tem muitos votos na matéria do culto da juventude, mas quando Filipe Faísca fez desfilar, na última ModaLisboa, uma mulher incrível de longos cabelos brancos, ou quando as recentes campanhas de Céline ou Tom Ford, visionários, ou os editoriais de Moda da nossa Vogue exibem a pinta da idade, ficamos de boca aberta, porque a piada está no poder da história de cada um, não no seu tempo de vida. Contracorrente ou um sinal dos tempos, a eterna juventude parece ter vindo para ficar. Hoje os jovens vendem todo o tipo de produtos e ideias. Uma cultura pop construída à volta da energia da juventude, gritante nos anos 60 e válida até hoje, formatando a nossa ideia do que é excitante e desejável. Claro que Andy Warhol também fez muito por isso, na sua Factory, ele próprio obcecado pela ideia de morte, cultivou e marketizou a juventude, por acreditar profundamente no poder do momento, na cultura da celebridade instantânea e de uma certa superficialidade hedonista. Ainda hoje o copiamos. O séquito de Warhol, qual gang juvenil, fazia fila para entrar nos seus filmes, Polaroids e gravuras de cores intensas como hoje os jovens se amontoam para uma selfie, entrar naquela guestlist ou passear a vaidade num blogue. E todos nós fazemos um pouco do mesmo nas redes sociais.

A nova geração, explica Carlos Ferreirinha, é um meio para um fim, em termos de mercado: "Como toda a imagem está muito jovem, as marcas usam a imagem dos millennials para que você compre inspirado nessa jovialidade. O Brad Pitt chegou aos 50 anos, não como um senhor de 50, mas parecendo um homem bonito de 30 e poucos anos. E parece mais jovem a vestir-se do que há uns anos. Toda essa imagética dos millennials reverbera para cima, porque eles não são força produtiva e não têm dinheiro", explica. Por outro lado, é claro que a rainha Internet, ao atravessar-se ao comprido na nossa vida pessoal e profissional, há uns anos, tem quase tudo a dizer e os que a tratam por tu estão mais à vontade para surfar a velocidade dos nossos dias. "A dinâmica digital está a forçar o adulto a ter de se tornar jovem para conseguir dialogar. Assim, os jovens passam a ser protagonistas, porque eles já nascem com esse chip do telemóvel na cabeça, enquanto nós temos de nos adaptar." E sentimo-nos todos permanentemente desatualizados. Se por um lado, criámos uma rede incrível de informação e interação social, "quem quiser saber mais, ter conteúdo, não tem porque não quer – acabaram-se as desculpas", sublinha Carlos Ferreirinha, num sorriso. "Por outro, tudo se apaga muito rápido, vivemos numa solidão coletiva digital: as pessoas relacionam-se com um mundo de pessoas, mas afastaram-se. É muito adolescente: relaciona­-se com mil pessoas e, na verdade, tem dois amigos. Hoje não se liga para desejar feliz aniversário, só se mandam mensagens. E estamos num grupo de amigos sempre a olhar para o WhatsApp. E isso tem afastado muito a profundidade das relações."

Do ponto de vista profissional, o excesso de jovialidade também tem os seus efeitos. Cristina Sousa Ferreira recorda que "a progressiva redução de margens de lucro empresarial faz com que o mercado organizacional prefira os salários mais baixos possíveis para os jovens e inexperientes, ficando a experiência a viver do subsídio de desemprego". É um dos seus lados perversos (até porque ninguém fica mais novo) mas, por outro lado, acrescenta Ferreirinha, "quando chega a recessão, voltam a contratar os mais maduros, porque são mais profundos e conseguem entregar mais rapidamente resultados". Segundo o marketer, existem ainda as consequências evidentes no dia a dia das redes sociais: "Quando você é jovem, fala o que quer, não tem muito filtro, vai lá e faz um monte de asneiras para os pais, para amigos, fere, é mal-educado e faz isso porque a sua juventude ainda não lhe deu o limite das coisas. É-se ainda muito livre. Isso tornou­-se um vírus e faz com que as pessoas entrem nas redes sociais e destruam marcas, xingam executivos e acabam com as pessoas. O Facebook tornou-se um fórum das pequenas causas humanas, as pessoas entram e opinam sobre tudo. Vejo agora com as manifestações do Brasil, você precisa de um pouco mais de profundidade para entender o que se está a passar, e vejo adolescentes e jovens de 20 anos criando um repertório completamente sem sentido. E se você tenta dialogar, tem um milhar de pessoas para te destruir. Esse é o lado muito complicado: toda a gente acha que pode opinar sobre tudo e que tem razão sobre tudo que é tipicamente jovem. Quando somos adultos e olhamos os jovens e dizemos: ‘você tem ainda muita coisa para aprender da vida’, sabe? A digitalização tirou essas barreiras e esses limites. Os jovens precisam de um pouco mais de tempo!"

E voltamos ao que Jon Savage já nos tinha dito antes dos teenagers, e que podia bem ser uma definição de web: a cultura do rápido, do novo, do excitante, do entretenimento, do desejo imediato – e do eu. E a verdade é que o mercado também corre atrás dos valores do like: "Hoje fico impressionadíssimo como uma marca valoriza mais uma blogger de 20 anos – e um blogue representa essa jovialidade extrema e fútil – do que um jornalista que trabalha há mais de 20 anos. De uma hora para a outra, mudaram-se os valores por causa dessa cultura da superficialidade potenciada por esta era de digitalização assustadora. É muito triste.Vamos ter de voltar atrás e encontrar um equilíbrio, porque não faz sentido nenhum: o dinheiro nem sequer está ali e não dá para viver essa intensidade, é opressor e esgotante."  

Mas nem tudo são más notícias. Além do óbvio, a juventude também é sinónimo de energia, frescura, saúde, Beleza. "É quem está no ativo, a controlar orçamentos de marketing ou, do outro lado, a consumir, a produzir ciência, a gerir media, progressivamente online", descreve a psicóloga. "E também a valorizamos porque assim é a nossa programação genética. E porque não entendemos aqueles que ainda não fomos." Por isso, e talvez seja esta a grande razão, o que nos apaixona é a ideia que temos dela como a época de maior descoberta e diversão, o momento em que uma certa ingenuidade nos salvaguardava e tudo (ainda) podia ser possível. E essa possibilidade inspira renovação, modernidade, abertura para o futuro, esperança. O sociólogo Bernardo Coelho senta-se connosco numa esplanada soalheira da Lx Factory. É sempre um risco generalizar, mas há que ser microscópico para depois ampliar e ter uma visão de sociedade. Existem várias juventudes, alerta, ainda que a subida da escolaridade e o acesso cada vez maior à informação nos torne cada vez mais parecidos e, de repente, com cada vez mais opções. De uma maneira geral, "os jovens de hoje sofrem, cada vez mais, de uma euforia do momento, talvez uma forma de escapar à sua ‘desfuturização’, feita de medo e insegurança", diz. E talvez não sejam hoje tão rebeldes como já foram. "Vão reinvidicar o quê? Com que recursos? Os jovens antes tinham uma carreira e uma certa estabilidade, agora há precarização e poucos horizontes." Da mesma forma, defende, "há uma maior superficialização dos conteúdos, o que não significa que as pessoas sejam mais superficiais", distingue. Vivemos "uma coisa muito estranha" que é a "felicidade como objetivo e não como consequência: agora quer ser-se feliz e não fazer-se X coisas. É uma imediatização de futuro e uma falta de perspetiva, porque significa uma ausência de projeto".

Existem dois movimentos nos quais as pessoas estruturam a sua vida, diz-nos Bernardo Coelho. "A pressão da narrativa pessoal, isto é, de ter uma história para contar, dar sentido à existência, e à eterna busca para alimentar essa história. E a segunda é a pressão dos recursos: escolhe-se de acordo com o que se tem: nível de educação, profissão, finanças, etc." Bernardo Coelho pede-nos para olharmos para a cultura hipster, uma minoria citadina e com recursos ("não falamos do emigrante ou do operário") que procuram constantemente essa aventura: "A manutenção da ‘estrada aberta’. Agora, para se sentirem mais novos, em vez do descapotável dos anos 90, o símbolo de virilidade é a mota retro. É o regresso à imagem da beat generation, uma dimensão muito estética, cheia de adereços corporais, como a roupa, os lenços, as barbas e as tatuagens (hoje é a mesma coisa que ir ao ginásio para um bodybuilder), com uma forte função identitária." Uma imagem altamente produzida, sem grandes valores filosóficos ou existenciais, muito diferente da beat generation, portanto. "É apenas o aproveitamento dessa estética na expectativa de um prolongamento de juventude. É uma cultura muito virada para os homens dos 30 aos 40 – porque hoje os 40 são ainda bastante jovens (o recrutamento para jovens agricultores é até aos 39!)." Mas é, ao mesmo tempo, um "retrocesso de valores" porque o rapaz da mota não quer mudar o mundo e talvez chegue a casa e calce as pantufas, acrescenta o sociólogo. "É um movimento muito machista, pois é reconfigurado para o que é ser um homem no sentido do estereótipo. E são tão machistas como os que vão para o ginásio ganhar músculo. Aproximam-se de uma estética das mulheres, mas nada muda no que eles acham ser um homem, querem mesmo recuperar uma masculinidade e uma feminilidade ‘perdidas’. E isso tem implícita uma certa violência, basta vermos o caso da barbearia do Chiado que não deixa entrar mulheres. É uma dimensão autocentrada e homocentrada."

E porque se espera sempre que as mulheres tenham de ser mais novas do que podem: na sua imagem social, no trabalho (até as atrizes de Hollywood se queixam que perdem papéis à medida que envelhecem) e principalmente nas relações, onde elas são, quase sempre, substancialmente mais novas?, perguntamos a Bernardo Coelho que é especializado em temas de género. "Isto da juventude é mais evidente nas coisas dirigidas às mulheres, naturalmente. Porque é julgada através do corpo, objeto de reflexão e estetização e investimento pessoal. O culto do corpo e da juventude é muito prolongado através da Moda que infantiliza, de certa forma, as mulheres. Os homens envelhecem e ‘ganham charme’, por isso não precisam de ocultar a idade. Nas mulheres, há toda uma estratégia de ocultação: pintam o cabelo, põem maminhas, fazem plásticas. A pressão é muito mais forte." Se olharmos para o estereótipo que é o James Bond e as suas girls (named after him) com metade da sua idade, podemos ter uma ideia. "Estamos a falar do ponto de vista dos arquétipos: elas são jovens e bonitas e vulneráveis – e sempre adjuvantes", descreve. "Porque é um estatuto, um troféu entre os homens. Da mesma forma que elas procuram homens mais velhos porque significam sucesso e estabilidade profissional."

Felizmente, os novos tempos, e as novas gerações, já rompem com esses arquétipos e a própria Moda está a fazer essa viragem de evolução, e "tem um papel importante, porque veicula uma mulher out & proud que quebra estereótipos mais tradicionais. É a afirmação da mulher nas várias vertentes da sua vida: utiliza o corpo como forma de investimento pessoal e bem-estar, mas rompe com a pacatez, o recato, o enclausuramento, a dependência. A feminilidade é cada vez menos condicionada. E a masculinidade também." Bernardo Coelho ilumina ainda mais o caminho: "Hoje já se fala em ‘cidadania sexual’, isto é, a noção de igualdade na sexualidade, o que é uma transformação radical, porque rompe com o duplo de padrões sexuais." Da mesma forma, para uma nova geração temas como o aborto, o casamento ou adoção por casais homossexuais já nem sequer se questionam. "Hoje as causas da juventude têm a ver com a igualdade entre homens e mulheres."

Essa é uma das maravilhas que estamos a aprender com a juventude: a inclusão e a partilha da diferença. Também uma certa ironia em relação à vida, e aligeiramento, a capacidade de não nos levarmos demasiado a sério. "Acredito que muito lá na frente, não sei se na próxima geração, os códigos tradicionais, se não extintos, serão neutralizados. Quantos anos tem, com quem dorme, se é homem ou mulher, o que for, vamos entrar numa era em que certos conceitos são tão esgotantes que vão desaparecer", assegura Carlos Ferreirinha. "Este é o grande lado positivo dos millennials, esses transgenders, esses não géneros: elas usam a roupa deles e eles usam a roupa delas; namoram com menino, menina e depois menino de novo, tanto faz. Vão ser capazes de derrubar isso, porque a cabeça está mais livre. A marca de Moda que põe na passerelle uma senhora de cabelo branco? Isso, que ainda é uma imagem forte, vai ser normal. Não vamos falar mais nisso, vamos falar de outras coisas, mas não vamos falar mais nisso. Essa salada vai ser interessante, faz cair padrões que não fazem mais sentido: do corpo, da estética, do sexo, das classes sociais – e da idade." Entretanto, os ténis, as T­-shirts, os jeans e os perfectos ocupam o nosso guarda-roupa e vieram para ficar.


Fonte:www.vogue.pt

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