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RÁDIO NOSSA JOVEM GUARDA: O Bar do Divino

abril 12, 2020

O Bar do Divino

O bar Divino foi um point dos jovens da zona norte, na calma e romântica Tijuca do final da década de 1950 até meados de 1960. O bar localizava-se na Rua Haddock Lobo, esquina com a Rua do Matoso, ao lado do Cine Madrid, tornando-o ainda mais popular naquela época. Além de ser um ponto de encontro para as conversas informais, refeições ou uma singela pausa para um milk-shake, a proximidade com o cinema servia de estratégia para os mais espertos, que aguardavam calmamente um “broto” qualquer sair da exibição, investindo logo numa paquera ou num simples jogo de olhar.

Durante as noites tijucanas, diversas turmas se reuniam no bar/restaurante, mas a que conquistou destaque especial foi uma apaixonada pelo recém surgido Rock and Roll e que em breve arrancaria suspiros aos embalos da Jovem Guarda.
A união dessa galera era fruto do amor pelo novo ritmo americano. Todos queriam cantar como os novos ídolos – Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry.

A turma era bastante diversificada, composta por moleques moradores da redondeza. Alguns vinham de Piedade, Rio Comprido, outros do Méier, mas todos se reuniam naquela mesma esquina, dentre os quais destacavam-se Tim Maia, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Edson Trindade (autor da música “Gostava tanto de você”), além de José Roberto, conhecido como O China e Arlénio Lívio, futuro integrante do Blue Caps, que numa noite, levou seu colega de curso supletivo, Roberto Carlos, ao Divino, apresentando-o para uma audição no grupo Sputniks.

Roberto morava no subúrbio de Lins de Vasconcelos, mas depois desse encontro começou a freqüentar o Divino tornando-se parte da galera tijucana.
Era bastante comum formarem-se grupos de rock aos moldes norte-americanos.

O Sputniks foi um desses grupos, criado por Tim Maia, mais conhecido como Tião pelos meninos da vizinhança (que quando queriam implicar com o gordinho gritavam “TIÃO MARMITEIRO!”, fazendo alusão à pensão da família do futuro Síndico do Brasil).

Erasmo e Tim Maia eram bem próximos. Este morava na pensão do pai, seu Altivo, na Rua Afonso Pena e aquele passou o início da infância e adolescência na Rua do Matoso, morando em residências modestas com sua mãe.
Erasmo relata em seu livro, ”Minha Fama de Mau” lançado pela editora Objetiva, algumas das formas de diversão daquele período:
“Casa do ócio, oficina do diabo, diz o ditado que é uma definição precisa daquela rapaziada da Tijuca. Afinal, a falta do que fazer, principalmente nas noites de sábado, nos levava a aprontar, como quando trocávamos as letras do Cine Madrid, reinventando o nome dos filmes. Trocamos Teseu e o Minotauro por Tesão do Mineteiro. Criamos outras jóias, como Uma Puta em Nova York (Um Rei em Nova York) e Mogli, o Menino Viado (Mogli, o Menino Lobo). Ficávamos esperando o dia amanhecer só para ver a reação das pessoas indo trabalhar.”
Ainda segundo as informações relatadas neste livro, a turma do Divino obtivera respeito perante as outras em função de um membro especial do grupo, uma garota, chamada Lilica. Uma menina mulher, que acompanhava os meninos em todas as atividades: brigas de rua, soltar pipa, jogar bola, ia ao Maracanã, bebia e ainda fazia sexo com todos. A primeira vez de quase todos aqueles jovens fora com Lilica, que por muito tempo foi o anjo e o talismã daquele seleto grupo.

Outro personagem curioso dessa galera era apelidado de Babulina e morava no Rio Comprido, o apelido veio por conta da sua interpretação da musica Bop-A-Lena de Ronnie Self. Seu nome era Jorge Ben um mulato alto, atlético, com ginga de malandro que sempre estava com seu violão nas costas.

A música não era a única paixão desses moleques, o futebol, mania nacional, também era tido como um sonho profissional idealizado por muitos desses garotos.

Erasmo e Jorge Ben se aventuraram por esse caminho, o primeiro fez um rápido teste no America e foi rejeitado, já o segundo tentou a sorte no Flamengo chegando a treinar no juvenil. Jorge jogava muito bem, driblava, tinha ginga e estilo e durante muito tempo suas habilidades com a bola foram fundamentais durante os campeonatos disputados pelo time do divino.

O pessoal do divino diferentemente das outras turmas era pobre, eles não tinham carros, nem motocicletas como outras turmas e por isso não podiam invadir sala de cinemas como as turmas da Zona Sul faziam. Com isso a turma do subúrbio arrumava um jeito para descolar uma graninha que serviria para o lazer ou poderia complementar a caixinha de fundos para viagem de Tim aos E.U.A, como narra Nelson Motta na biografia Vale-Tudo:
Nas vésperas da viagem, encontrou Erasmo no Divino e ficou sabendo que a noite seria chumbo grosso. Uma velha casa de cômodos da Rua do Matoso ia ser demolida. O último inquilino já havia saído, o pardieiro estava vazio e caindo aos pedaços e, como era muito antigo, todos os encanamentos eram de chumbo ─ e o chumbo valia 35 cruzeiros o quilo numa lojinha na Leopoldina. Não seria a primeira vez. Os garimpeiros de chumbo dividiam a casa por áreas e cada um ficava com a sua, para não ter briga. Só os canos de uma privada, tubos imensos de chumbo, garantiam uma semana de vida mansa e, para garotos pobres da Tijuca, farta.

Depois daquela noite, toda a turma comprou roupas novas na Ducal e Tim conseguiu mais 9 dólares, trocando os cruzeiros do chumbo a peso de ouro numa joalheria da Haddock Lobo.”
A fama do Divino ainda está presente na Rua Haddock Lobo, o bar ao lado dessas duas lojinhas na esquina com a Rua Barão de Ubá adotou o nome de “Botequim do Divino”. Influencia explícita ao antigo point, apesar de não haver nenhuma ligação com antigo proprietário.




Fonte:jovemguardasempre.blogspot.com

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