março 09, 2014

Wanderléa lança CD e DVD ao vivo e prepara autobiografia


Às vésperas dos 50 anos da Jovem Guarda, cantora reflete sobre o movimento que a classe artística classificou como alienado.

Muitas respostas podem ser dadas, mesmo 50 anos depois. Quando rodopiava no olho do furacão ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, entre 1965 e 1968, Wanderléa não tinha nem experiência para rebater desaforos nem tempo para ler o que diziam sobre o Programa Jovem Guarda, a revolução comportamental que o trio liderava na TV Record e que o universo artístico teimava em não reconhecer como tal.

Mineira de Governador Valadares, filha de pai libanês rígido, Wanderléa Charlup Boere Salim tinha 19 anos quando ajudou a inventar a juventude. Os músicos da MPB engajada contra o regime militar – de Chico Buarque a Elis Regina, de Edu Lobo a Gilberto Gil – consideravam o que fazia um subproduto alienado, infestado de uma cultura norte-americana que nada mais tinha a dizer.

Decidida a lançar sua autobiografia este ano pela editora Record, além de um CD e um DVD revisitando o disco Wanderléa Maravilhosa, de 1972, gravado ao vivo no Teatro Municipal de São Paulo durante a Virada Cultural de 2014, Wanderléa reflete ao Estado sobre seus anos de Ternurinha com respostas que poderia ter dado há 50 anos, se o furacão permitisse.

A MPB da segunda metade dos anos 60 decretou guerra com ataques pesados à Jovem Guarda, mas você, Roberto e Erasmo nunca respondiam aos detratores. Por quê?
A patrulha em cima da gente era muito forte e nós éramos muito jovens chegando naquele espaço. Aquilo nos abalava muito, mas tínhamos tantos compromissos que não dava tempo de remoer. Eu não conseguia tempo nem para contestar. Fazia programa, corria para shows, atendia imprensa. Não consegui nem colocar a voz no filme Juventude e Ternura (1968). Meu personagem acabou recebendo a voz de Norma Blum por isso. Não tínhamos uma assessoria dizendo o que devíamos e o que não devíamos responder. Era pau o tempo todo, ficamos muito indefesos.

Há mágoas desta época?
Não, mas foi difícil. Éramos recebidos com tapete vermelho em toda a parte mas a própria classe artística não reconhecia que o que fazíamos era algo verdadeiro. O fato de vir na frente é sempre muito difícil. Quando surgimos, o que havia era a bossa nova, a música de apartamento, de cantar baixo para não incomodar o vizinho. Éramos jovens, queríamos dançar, puxar o parceiro para a pista, jogar as pernas para o alto. Nosso movimento quebrava com as raízes da música tradicional e os elementos eletrônicos (guitarra, contrabaixo) eram vistos como uma heresia.

Vocês eram chamados de alienados pelo pessoal da MPB, que sofria tentando driblar a ditadura nas letras das canções.
A ditadura que vivíamos dentro de casa era a primeira a ser combatida. Não éramos politizados, como uma criança não poderia ser, mas queríamos assistir aos filmes, ouvir a música americana que quase não chegava aqui. Nossa contestação era total, tanto que a família brasileira não nos aceitava, achava que íamos perverter seus filhos dentro de suas casas. Mas os meninos queriam cantar rock, usar cabelos compridos, roupas coloridas. Quando cheguei a São Paulo, os homens só andavam de cinza e azul marinho.

O que era a juventude antes da Jovem Guarda?
A gente ouvia o que o pai da gente ouvia. Quem escolhia nossas roupas eram nossas mães. O rapaz botava um (sapato) Vulcabrás e fazia um corte no cabelo para demorar a crescer. As meninas só usavam roupas que iam até abaixo do joelho, saias com cinturinha, anáguas com combinação. Não havia uma cultura jovem, com música para jovem, roupa para jovem, literatura para jovem. Chegamos com as saias curtas, roupas pretas de couro, botas que não existiam.

A revolução comportamental da Jovem Guarda teria feito mais do que a luta política da MPB?
Eu acho que sim. E qual desses movimentos formam filas até hoje com pessoas que trazem todos os LPs dos artistas querendo autógrafo? Eles não tiveram isso. Fazem trabalhos de respeito, mas não tiveram essa flecha no coração das pessoas.

E por que não respondiam às críticas naquela época?
Vou falar tudo no livro que estou escrevendo. Nós não tínhamos orientação sobre nada, não sabíamos nem o que estava acontecendo, não sabíamos que aquilo iria tomar o Brasil. Eu achava divertido ficar em frente ao espelho inventando um passo de dança para chegar em Fortaleza e ver o pessoal fazendo aquela dança. Era demais, mas era diversão. Enquanto isso, a crítica nos massacrava. Hoje, quando leio matérias daquela época, digo "como é que esse infeliz falou isso?". Quanto mais éramos amados, mais ficavam furiosos. Quando surgimos na TV não havia Tropicália, não existia Mutantes, Novos Baianos, Dzi Croquetes. Eles estavam assistindo a gente em casa.

Acredita que vocês influenciaram essas pessoas?
O referencial não é só para fazer igual, mas para fazer dizerem "aquilo eu quero, aquilo eu não quero". Para mim, o cara que é o grande revolucionário desta época se chama Jorge Ben. Um dia eu estava na Rádio Guanabara e ouvi Mas que Nada. Fiquei chocada. O Jorge não foi aceito pela MPB nem pela bossa nova porque não entendiam o que ele estava fazendo, então ele foi baixar no nosso ninho e passou a usar nossas roupas. Quando falam de anos 60, jamais citam a Jovem Guarda como um movimento. Até hoje as pessoas preferem pular esse episódio. A leitura é tão mal feita que, quando me chamam para fazer uma comemoração do período, usam uma roupa que era a dos anos dourados (anos 50), com pregas e bolinhas, lacinhos cor de rosa e lencinhos no cabelo. Exatamente o que a gente não queria, tudo o que a gente contestava.

Você vai aproveitar sua autobiografia para esclarecer episódios?
Eu estou falando aqui com você e acabo de lembrar de um episódio que não está no livro, não escrevi ainda. Nos anos 60, com a Jovem Guarda em atividade, me chamaram para fazer um show em um leprosário em Fortaleza. As pessoas alertavam para eu lavar as mãos, não encostar nas paredes, mas muito por causa da atuação dos meus pais, eu não tinha melindres. Depois de passar por três ou quatro estágios do hospital, me disseram que havia um grupo vivendo dentro de um buraco, em cavernas, no estágio avançado da doença. Eu fui lá. Eles colocaram uma escada e eu desci sozinha com um violão. Quando cheguei embaixo, as pessoas começaram a surgir de buracos gemendo e enroladas em uns panos. E eu cantei para elas.

E o que você sentiu depois?
Quando digo que não tínhamos tempo nem para ler o que saía sobre a gente na imprensa, é isso. Eu saí de lá e não tive tempo de destilar aquilo. Muitos anos depois, em 1978, quando conheci o Egberto Gismonti, lembro que estávamos em casa e ele começou a tocar uma música bonita. Eu fiquei ouvindo aquilo e sentindo uma emoção que foi crescendo. Eu não sabia de onde ela vinha até que dei um grito e botei tudo pra fora. Você acredita que era toda a emoção do leprosário saindo quase dez anos depois?

Escrever um livro de memórias deve ser parecido com isso.
Aconteceu o tempo todo, e eu deixei a emoção sair. Ainda releio e choro com a história do meu irmão Bill, que acompanhei nos dez anos que ele lutou contra a Aids até sua morte, minha vida com o Zé Renato (seu ex-marido), quando, depois do acidente que ele sofreu, vivemos juntos com ele em uma cadeira de rodas por sete anos, minha irmã que foi assassinada, o meu filho que eu perdi (Leonardo morreu afogado aos 2 anos).

E hoje você já consegue falar "o filho que eu perdi." É um avanço?
O livro me ajudou muito com isso. O tempo passa e a gente melhora como ser humano. Há muitas histórias sobre você. Uma delas diz que foi ligada a uma comunidade esotérica chamada Grande Fraternidade Branca. Sou até hoje estudiosa dos preceitos da Fraternidade Branca e devota dos seus mestres ascensionados. O meu livro de cabeceira é O Livro de Ouro de Saint Germain, que abrange ensinamentos da Divina Presença Eu Sou.

Outra diz que, ao ser preso em 1967, o Bandido da Luz Vermelha declarou que era apaixonado por você. É verdade?
Sim, é. Logo depois de ser preso, ele me enviou cartas lindas com uma letrinha minúscula mas caprichada em canetas coloridas. Antes de ser preso, declarou à polícia que tentou, por duas vezes, se aproximar de mim. A primeira havia sido próximo à minha residência e, a segunda, em um aeroporto. Eu nunca soube com qual intuito. O Laurão, meu segurança na época, mandou um violão de presente para ele.







Fonte:  www.d24am.com

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