julho 13, 2015

Filme inspira primeiros roqueiros na Bahia; bandas surgem nos anos 60

Ritmo chegou ao estado através do cinema, ainda na década de 50.
Raulzito e os Panteras se destacam como o grande grupo de Salvador.

Banda Raulzito e os Panteras, em 1965. Da esquerda para a direita: Carleba (de costas), Mariano, Raulzito e Eládio (Foto: Carlos Eládio/Acervo pessoal)

Tudo começou com uma simples ida ao cinema. Quando as luzes se apagaram, todos na sala sabiam que, dali em diante, tudo iria mudar. Em 1956, estreou em Salvador, no Cine Guarany, localizado na Praça Castro Alves, centro da capital baiana, o filme “Sementes da Violência”. A película tratava sobre a delinquência juvenil que se seguiu à 2ª Guerra Mundial nos Estados Unidos, entretanto, a maior contribuição do filme foi apresentar o Rock n’ Roll aos jovens baianos.

Cartaz de divulgação do filme 'Sementes de
Violência', cujo título original é 'Blackboard Jungle'
(Foto: Divulgação

Com trilha sonora de Bill Halley, “Sementes da Violência” começava e terminava com a canção “Rock Around The Clock”, instantaneamente absorvida pelos ouvidos dos jovens que, empolgados, geralmente vandalizavam o cinema onde o filme era exibido. Quem se gabava de ter visto o filme mais de 80 vezes no Cine Guarany era um pré-adolescente de 11 anos, apelidado pelos pais de Raulzito.

Outro que marcou presença no cinema da Praça Castro Alves foi Carlos Eládio, amigo de Raulzito e futuro guitarrista da principal banda da cidade nos anos 60, a Raulzito e os Panteras. “Eu vi algumas vezes. Me lembro do cinema inteiro abarrotado, as pessoas em pé, dançando, cantando. Era uma festa”, lembra.

“Todos nós fomos levados para o rock através do cinema. Depois de “Sementes da Violência”, vieram os filmes de Elvis, James Dean e outros”, acrescenta Eládio, destacando que não era só a música que atraía, mas o comportamento explicitamente rebelde, que antes não existia.

Carlos Eládio, nos dias atuais, ainda empunhando sua guitarra (Foto: Nancy Viegas/Divulgação)



Ednilson Sacramento, pesquisador e autor do audiolivro “Rock Baiano - História de uma Cultura Subterrânea”, destaca que na segunda metade dos anos 50, Salvador era uma cidade muito pequena. “A população era de 450 mil ou 500 mil habitantes. Salvador era menor, em população, do que o bairro de Cajazeiras hoje em dia. Para aquela juventude, o rock foi uma revolução no entretenimento e comportamento. Antes, você tinha as grandes orquestras, a bossa nova e similares, e então, surge o grito de liberdade do rock. Quem assistiu àqueles filmes saiu da sala de cabeça virada”, afirma.

A partir daí, o Rock n’ Roll começou a se tornar objeto de culto para muitos jovens baianos, dentre eles o menino Raulzito, que segundo Eládio conta, tinha uma vantagem com relação aos amigos. “Ele morava perto do consulado dos Estados Unidos em Salvador, e acabou ficando amigo dos filhos dos diplomatas, que conseguiam discos importados para ele”, conta.

Pesquisador Ednilson Sacramento diz que o rock foi
uma revolução no entretenimento e comportamento
dos jovens dos anos 60 (Foto: Ednison Sacramento/
Arquivo pessoal)

“Acesso a discos era muito difícil. Comprar um instrumento? Pior ainda. Tinha que ter alguém em São Paulo ou no Rio. Tudo girava em torno do eixo. O que a gente conhecia de Rock era através de Raulzito, que recebia discos por causa das amizades com os americanos”, lembra Eládio.

Nascem as primeiras bandas

A partir do começo dos anos 60, as bandas de rock começaram a surgir na Bahia. Uma das primeiras foi a Relâmpagos do Rock, fundada por Raulzito, e que dois anos depois já se chamava Raulzito e os Panteras. A formação que ficou para posteridade contava com, além do fundador, Eládio na guitarra, Mariano Lanat no baixo e Carleba na bateria.

“Acredito que fomos os primeiros, mas várias outras bandas foram formadas na época. O irmão de Raulzito, Plínio, formou a Eles Quatro, tinha também Os Jormans, Os Gentleman, que era formada pelos irmãos de Pepeu Gomes [que entra na história na década seguinte], e vários outros cantores e cantoras”, conta Eládio.

O templo dos shows de rock em Salvador nos anos 60 era o Cine Roma, localizado no Largo de Roma, na Cidade Baixa. Naquela época, entretanto, o Rock n’ Roll era mal visto pela sociedade, sendo associado à delinquência e, especificamente em Salvador, às classes sociais mais baixas.

“Os pais não viam aquilo com bons olhos. Se nos Estados Unidos Elvis foi filmado da cintura para cima nas apresentações de TV, porque ele mexer os quadris era considerado vulgar, imagine Raulzito fazendo a mesma coisa em Salvador”, exclama Eládio.

“Gostar de Rock era chulo. Quem ia assistir aos shows de Raulzito e os Panteras no Cine Roma eram as empregadas domésticas e os motoristas de táxi”, conta Marcelo Nova, fundador da banda Camisa de Vênus nos anos 80, mas que no início da década de 60 era um pré-adolescente apaixonado por rock.

'Gostar de Rock era chulo', destaca Marcelo Nova (Foto: Divulgação)

“As reações ao show eram as mais variadas”, diverte-se Marcelo. “Raul se jogava no chão, e as mães ficavam horrorizadas, achando que Raul era epiléptico. ‘Tira minha filha daí, que esse menino é epiléptico’ (risos). Mas o lance é que as meninas ficavam atraídas. Elas nunca tinham visto antes um menino com aquele comportamento. Não havia isso antes. A música de antes era Bing Crosby, Frank Sinatra, Nelson Gonçalves. Era uma música tida como música séria. E o rock para os pais era considerada uma falta de consideração completa”, conta Marcelo.

Com relação ao impacto do grupo, Nova destaca a banda de Raul como o fenômeno definitivo de sua vida. “Raulzito e os Panteras foram os meus Beatles. Foi a primeira banda que vi ao vivo, sem precisar ficar olhando para capa de disco. Eles estavam todos ali na minha frente. Ver aqueles caras foi a coisa mais importante da minha existência. Eles me apontaram uma direção. Eles tinham várias referências inglesas e americanas, mas eles eram baianos que nem eu. A partir deles, eu concluí que se eles podiam fazer aquilo, eu podia pelo menos tentar. Através deles, tive a visão de poder tentar”, diz Marcelo.

Raulzito, de preto, e os Panteras, de branco, em
1967 (Foto: Carlos Eládio/Acervo pessoal)

É importante destacar que na época o material das bandas era quase 100% de covers dos clássicos dos anos 50, como Elvis, Chuck Berry, Little Richard e Jerry Lee Lewis, e dos anos 60, como os Beatles. “Não que as pessoas não soubessem compor, mas ninguém se atrevia”, explica Ednilson Sacramento. “Na época você consumia a música importada, não produzia. Era uma marca da época”, acrescenta.

Paralelo ao aparecimento das bandas, um amigo de Raulzito também teve um papel de extrema relevância para a consolidação do rock em Salvador. Waldir Serrão, famoso pelo apelido de Big Ben, foi o responsável por levar o ritmo para as rádios e televisão. Atualmente aos 74 anos, Waldir Serrão reside no Abrigo Dom Pedro II, administrado pela prefeitura municipal.
“Ele foi o grande agitador cultural da época”, afirma Eládio. “Big Ben tinha programa de rádio, promovia shows, eventos, programas de TV e movimentava todas as matinês e shows no Cine Roma”, lembra.

No fim da década de 60, Raulzito e os Panteras se mudaram para o Rio janeiro, para gravar o primeiro disco, autointitulado, mas que comercialmente não teve sucesso. Os integrantes da banda retornaram para Salvador, enquanto Raul ficou pelo Rio.

“Depois que voltamos, cada um foi para um lado”, diz Eládio. “Nos afastamos da carreira de músicos, fomos fazer faculdade, etc. Os Panteras já não existiam, havia um cenário diferente”, explica.

Raulzito e os Panteras durante uma apresentação no Rio de Janeiro em 1968 (Foto: Carlos Eládio/Acervo pessoal)

Uma das bandas deste “cenário diferente” era a Hells Angels, que tinha em sua formação um guitarrista chamado Armando Macêdo, um dos expoentes, na década seguinte, de um estilo marcado pela aproximação do Rock n’ Roll com a música regional brasileira, iniciada pelo movimento Tropicalista no fim dos anos 60 e aprofundada pela banda Novos Baianos, ainda no ano de 1969. Entretanto, quem vai colocar a Bahia no mapa do Rock feito no Brasil, já na primeira metade da década, é o velho Raulzito, agora já respondendo pelo seu nome de batismo: Raul Seixas.





Fonte:g1/Bahia


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