outubro 22, 2012

Wanderléa: Eterna musa da jovem guarda fala de sua vida e carreira

Wanderléa é rock ‘n’ roll. Ternurinha é a vovozinha. Eterna musa da jovem guarda, pesando 52 quilos aos 66 anos, ela mantém no visual, sem forçar a barra, essa imagem de jovialidade consagrada no imaginário brasileiro. Só que, ousadia sempre foi com ela mesma: não só nos tempos pioneiros da minissaia que escandalizou as vovós na década de 1960, mas na guinada radical no início da década seguinte. É essa fase que finalmente volta à tona agora, com o lançamento de uma caixa da gravadora Discobertas, Wanderléa Anos 70, produzida por Marcelo Fróes, com quatro álbuns daquele período, mais um de 1981 e uma compilação de raridades.

“A vida me forçou a degustar, a vivenciar tudo no aqui e agora”, diz a cantora, que mantém a serenidade acima dos dramas, com o mesmo conforto e alegria que predominam em seu apartamento em São Paulo, adquirido nos tempos da jovem guarda. “Morei em outros lugares, outras cidades, mas sempre fiz questão de conservar isto aqui.”

Renegar o passado, jamais, mas Wandeca tanto se consagrou como ficou de certa forma estigmatizada por hits como Ternura, Pare o Casamento, Foi Assim e Prova de Fogo, que até hoje o público espera ouvir dela - e que em passagens por diversas gravadoras sempre foi forçada a regravar. “Uma pessoa que fez uma cabala pra mim um dia disse que sou uma divisão entre uma cigana centenária e uma eterna teenager. Tem um pouco a ver sim.”

Livre de compromissos com o sucesso, enfrentando vários dramas pessoais ao mesmo tempo, ela decidiu fazer o que bem entendeu no início dos anos 1970. “Vivi ainda jovem a ascensão pública, e ao mesmo tempo tive situações muito difíceis, coisas que me colocaram em vários questionamentos. Essa caixa de CDs, esse presente do Marcelo, vem me falar muito desse período”, observa. “Até a jovem guarda minha vida era uma sucessão de coisas alegres, felizes. Essa caixa é um registro dos hiatos que tive na vida, todo alternado com as situações difíceis pelas quais passei.”

A primeira fase da carreira de Wanderléa terminou com o álbum Pra Ganhar Seu Coração, de 1968, o último da primeira passagem da cantora pela gravadora CBS (hoje Sony Music). O disco seguinte foi lançado quatro anos depois, pela Polydor (vinculada à Philips, hoje Universal). Na época, a gravadora não deu muita importância a Maravilhosa, que virou cult anos depois.

Nesses quatro anos que separam um trabalho do outro, ela enfrentou duas situações trágicas: a morte do pai e o acidente de seu ex-marido Renato Barbosa, que ficou tetraplégico. “Ele até hoje anda em cadeira de rodas. Somos amigos, vivi com ele sete anos. E era uma coisa muito louca, porque eu praticamente era a enfermeira dele.”

1972. 'Maravilhosa' - Com músicas de Gilberto Gil ('Back in Bahia'), Assis Valente ('Uva de Caminhão'), Fábio ('Alegria') e Jorge Mautner ('Quero Ser Locomotiva'), virou cult.

“Passei muito tempo sem conseguir falar sobre os sete anos que vivi com Zé Renato. Quando tocava nesse assunto, aquilo acabava comigo. Demorei muitos anos para comentar com tranquilidade a respeito disso”, conta. A partir dessas experiências, ela diz que passou a entender a vulnerabilidade do ser humano, a importância do estar aqui e agora.

“Minha vida nunca foi tradicionalmente correta, harmoniosa. E mais também por causa da minha impetuosidade. Sempre vivi tudo com muita paixão, tanto na vida pessoal como na profissional. E as coisas vinham naturalmente. Nunca tive o sentido oportunista do que aquele momento estava me trazendo. Sinto hoje as pessoas muito programadas, se aquilo te interessa, você vai àquele encontro porque pode te retornar em alguma coisa.”

Desbunde. Diante dessas situações, Maravilhosa veio então como o “desbunde total”. “Toda aquela pressão que eu vivia, canalizava em cima do palco. Era o início dos Dzi Croquettes, Paulette ia lá pra casa e tudo que ele aprendia com Lennie Dale ele levava lá pra casa e a gente ficava ensaiando para esse show.”

Com peruca black power na capa, influências de balanço de música negra e outros sons pós-tropicalistas, estranhos ao universo ingênuo da jovem guarda, a que seu público estava habituado, ela deu voz a Caetano Veloso quando no exílio. Gravou dele o frevo Chuva, Suor e Cerveja (presente na compilação de raridades da caixa da Discobertas) em compacto que marcou sua estreia na Philips e a guinada estética, que incluiria a direção da refinada compositora e violonista Rosinha de Valença para o antológico show Feito Gente, registrado em disco (um dos melhores de toda sua carreira) em 1975.

Mais adiante Wanderléa enfrentaria outro golpe violento: a morte do filho de 2 anos, afogado na piscina, em 1984. Antes, porém, veio o fim do casamento com Zé Renato e, na aproximação com Egberto Gismonti, com quem ficou três anos, uma nova possibilidade de se reerguer artisticamente. “Na medida em que a gente cresce, vai mudando, mas a essência permanece.”

O álbum mais recente de Wanderléa, de 2008, não foi intitulado Nova Estação por acaso. O conteúdo remete a essa fase mais arrojada e diversificada da década de 1970. E para quem não sabe, ela conviveu com o universo do choro antes da jovem guarda. “Agora estou montando repertório para gravar um disco mais pop, mas tenho planos de fazer um projeto só de chorinho, que eu adoro. Gosto e tenho facilidade de cantar a música brasileira mais brejeira. Faz falta.”


Dica: Para melhor ouvir o aúdio do vídeo de pausa na música de fundo do blog na barra abaixo na sua tela.




Fonte:Informações Estadão

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