outubro 24, 2013

O nossos diferentes Roberto Carlos


Roberto Carlos faz parte das nossas vidas tão intensamente que cada um de nós tem um Roberto preferido: eu tenho o meu Roberto, o internauta/leitor deve ter o seu, e assim por diante, uma sucessão de nossos Robertos Carlos, com as canções e particularidades de que gostamos.

Portanto, os brasileiros, principalmente, sentem-se um tanto donos de Roberto Carlos. Há cinquenta anos, ele é nossa maior celebridade, só concorrendo mesmo com Pelé em popularidade, mas Pelé não está mais na ativa. Roberto, feito Papai Noel, entra em nossas casas todo Natal e em outras ocasiões.

A minha canção preferida de Roberto deve ser Quero que vá tudo pro inferno, do Lp Jovem Guarda. Desde que me entendo por gente, me habitam aquelas imagens da capa, com Roberto vestido de camisa e calça jeans, que me pareciam ser um uniforme, tanto que, quando comecei a ler, imediatamente associei o título Jovem Guarda ao fato dele ser um militar jovem, um jovem guarda.

O meu velho lp tem um arranhão do começo ao fim nessa faixa, e a voz, portanto, passou a vir aos solavancos, tornando inviável a sua audição, tanto que comprei mais tarde um compacto duplo contendo a faixa, mas o disquinho sumiu misteriosamente da capa e nunca mais apareceu. Com o advento do cd, comprei um exemplar do Jovem Guarda e voltei a ter a faixa ao meu dispor.

Sei, inclusive, o numero de vezes – sete – em que ele canta o verso final, como também sei qual a marca que ele usa – um "ah!" em vez do "ôu ôu" – pra cantar o verso final. E ele nem canta mais essa música, mas não precisa. Ela está em um continuum na minha rádio-cabeça, presentificando meu passado, feito um marca-passo afetivo-existencial.

Amigos meus dez anos mais novos, na faixa dos 50, também músicos, já se identificam mais com O portão -  que eles traduzem sorrindo pra The Gate – de um período em que eu já estava partindo pra ouvir outros sons. Mas eles me ensinaram a cantar e me emocionar com o verso do cachorro que sorriu latindo, tão malhado na época em que a canção foi lançada.

Apesar de Roberto Carlos ser muito popular, ele sempre foi achincalhado por quem se dizia inteirado das coisas. Criticado por ser roqueiro, por ter deixado de ser roqueiro, por ser romântico, por vestir azul, por ter tal tipo de cabelo, e por ser amado, afinal.

Por isso, acho que deve ser difícil ser Roberto Carlos, celebridade e ícone pop há 50 anos –  só comparável a Chico Alves e Carmem Miranda que, no entanto, morreram com cinquenta e poucos e quarenta, respectivamente. Roberto vive, está com mais de 70.

Acho mesmo que nosso maior ícone pop tem um quê de Cristo, seguindo seu caminho, visionário, firme, apesar do ladrar dos cães em torno, e dos incréus e desgarrados.

Por isso, com relação à proibição da sua biografia Roberto Carlos em detalhes, e posterior e atual polêmica em torno da manutenção da lei que permite a um biografado proibir biografias não-autorizadas – e mesmo tendo lido o livro e gostado do mesmo, em que o autor diz que uma das razões do sucesso maior de Roberto é o fato de ele ser um grande compositor, elogio que os críticos sempre deixaram pra Chico Buarque, Tom Jobim ou Caetano – e sabendo também que a maioria dos brasileiros tem Roberto Carlos em seu coração, mas é complicado saber o que anda no coração de Roberto Carlos, porque só ele ocupa tal status de ícone popular; eu ia dizer que não concordo com a sua posição de proibir um livro tão interessante, nem com a lei que o permite fazer isso, mas o entendo.

Entendo, inclusive, e aprovo o argumento legítimo do direito à privacidade, numa época em que – dizem – privacidade não existe mais.

No entanto, após ouvir, no programa Saia justa, Paulo Cesar Araújo, autor da biografia proibida, dizer que os advogados de Roberto – além de terem conseguido ficar com os exemplares do livro, sob pena de a editora fechar se não entrasse em acordo – quiseram multá-lo em 500 mil reais por dia, e pediram a sua prisão por dois anos, desisti.

Desisti porque isso eu simplesmente não entendo, não tem como entender.







Fonte: adaptação do texto de Bob Fernandes Terra Magazine

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