setembro 01, 2012

A música e a Igreja na década de 60



Sem haver um novo estilo de música oficial e obrigatório para execução nas missas, alguns religiosos brasileiros, logo após o Concílio Vaticano II, abriram as portas de suas igrejas para a música popular. A tendência não era geral: o padre baiano que, no início de 1967, celebrou o casamento do letrista Torquato Neto com Ana Maria Santos e Silva impediu que os parceiros do noivo - entre eles Caetano Veloso e Gilberto Gil - tocassem sambas durante a cerimônia (cf. reportagem da revista Intervalo, Torquato e Ana: Vida a Dois, de 05/02/1967, reproduzida em Torquato Neto: 1982, sem indicação de página). Mas, no final do mesmo ano, o sacerdote que oficiou o matrimônio de Caetano e Dedé Veloso não pôde obstar a invasão da igreja por dezenas de fãs do compositor, cantando “Alegria, Alegria” (Calado, 1997: 152-157).

Já no ano anterior, porém, houve convites de padres para roqueiros da Jovem Guarda tomarem parte em missas. Os casos mais comentados foram do frei Leovigildo Balestieri, pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz, do bairro de Ipanema, Rio de Janeiro, que promoveu a “missa do iê-iê-iê” com The Brazilian Bitles, e de dois padres de Curitiba, Euvaldo de Andrade, capelão da base aérea, e Emir Calluf.

Pouco antes da “missa do iê-iê-iê” em Ipanema, os Brazilian Bitles haviam tocado a “Ave Maria” de Schubert em ritmo de balada, numa festa em Teresópolis. O fato foi muito comentado, mas a missa subseqüente assumiu proporções de escândalo. Moças dançaram sobre os altares, ao que parece incitadas por fotógrafos (Fróes, 2000: 120). A revista Intervalo assim se manifestou sobre o caso:

“Não há como censurar os Brazilian Bitles: não têm a responsabilidade da Igreja e estavam ali como convidados, na melhor das intenções. Mas dizem que de boa vontade está calçado o inferno. Se não houve dolo, houve falta de previsão e, certamente, é confiar muito pouco na juventude o fato de achar-se que somente através do iê iê iê retornará à fé. É como conferir a Roberto Carlos um valor catequético igual ao de João, o Evangelista, ou de Pedro, o fundador da Santa Madre Igreja. Os sacerdotes católicos estão, a nosso ver, carecendo de melhores pesquisas, para tratar com a onda do iê iê iê - e isto pode transportá-la a um plano místico perigosíssimo. Vamos deixar os cabeludos em paz, sem lhes conferir funções litúrgicas, ou paralitúrgicas”. (Fróes, 2000: 120-121).

O padre Calluf utilizava músicas do repertório de Elis Regina, Wanderley Cardoso e Luis Vieira, além de fazer adaptações de alguns sucessos da época, como “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, que eram interpretadas por João Luis e Os Águias. O caso chegou ao conhecimento do Vaticano.

O episódio mais notório foi mesmo do padre Euvaldo. Na qualidade de padre-capelão de uma unidade da Aeronáutica (a base aérea da capital paranaense) em plena época da ditadura militar (junho de 1966), foi repreendido tanto pelas autoridades da Igreja quanto pelas do Exército. Proibido pelo comandante da base, brigadeiro Peralva, de realizar novos cultos semelhantes, o padre foi punido com a transferência para Brasília, ordenada pelo arcebispo de Curitiba, dom Manuel da Silveira d’Elboux, que considerou a missa com rock “uma atividade profana”. Padre Euvaldo, que dizia aos jovens: “Aceito tuas músicas se aceitares o ritmo das minhas idéias”, defendeu-se perante seus superiores dizendo que só pretendia atrair os jovens para a Igreja (Fróes, 2000: 121). Afinal, em que consistia a missa que provocou tanto celeuma?

“(...) uma missa com música dos Beatles no Evangelho, bolero de Vanderlei Cardoso na Comunhão, e uma versão de Quero que tudo mais vá pro inferno ao final do ato religioso. A falta de respeito era tanta que no fim da missa, quando o padre abriu os braços, os fiéis pensaram que ele ia dar uma de Vanderlei Cardoso e berrar: ‘Abraça-me fo-or-teee!!!’. Mas o Padre Euvaldo saiu com uma de Roberto Carlos e berrou: ‘Meu Deus, eu te amo, mora’. (Ponte Preta: 24)

De acordo com Fróes, 2000: 121 e Pugialli, 1999: 78, a frase dita pelo padre teria sido: “Hóstia, eu te adoro, mora!”, durante a Consagração. A versão de padre Euvaldo para “Quero que Vá Tudo pro Inferno” era “Quero que Deus me Aqueça o Coração”, também cantada por João Luis e Os Águias:

“De que vale o céu azul / e o sol sempre a brilhar/ E se Deus não vem e eu estou a Lhe esperar/ Eu só tenho Deus no meu pensamento/ e a Sua ausência é todo o meu tormento/ Quero que só Deus me aqueça o coração / pois tudo será bela canção/ Não suporto mais Deus longe de mim/ Quero até morrer, do que viver assim/ Quero que só Deus me aqueça o coração / Pois tudo será bela canção.” (Fróes, 2000: 121).

Com uma outra atitude perante a questão, um pároco carioca, Antônio Curti, patrocinou um “grupo jovem”, Os Átomos, que foi integrado inicialmente por congregados marianos, em maio de 1967. Mais tarde, o grupo desligou-se da paróquia, passando a aceitar músicos leigos e a animar festinhas no subúrbio (Pugialli,1999: 276).

Mesmo sem se envolver diretamente com as missas do iê-iê-iê, Roberto Carlos foi citado por Stanislaw Ponte Preta e pela revista Intervalo nas críticas que estes dirigiram ao evento. O cantor, na época, já era nacionalmente famoso como líder da Jovem Guarda e começava a ter sua imagem associada com a religião. 

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