agosto 03, 2012

O inimigo do rei


Ronnie em dois tempos: olhos verdes, gosto por vinhos e cabelo liso


Ronnie Von foi o único artista a ameaçar o trono de Roberto Carlos, que fez o que pôde para destruir o rival. O apresentador lembra das desavenças e diz que, hoje, está tudo bem: “A vida nos uniu”

Tente pensar que houve um tempo em que Roberto Carlos era apenas uma jovem promessa, com uma ou duas composições de sucesso, hits estrangeiros no currículo e um programa de TV dedicado ao volúvel público adolescente. Foi nesse momento que o futuro Rei viu surgir, do nada e de repente, o único artista que realmente temeu: Ronaldo Lindenberg Von Schilgem Cintra Nogueira, vulgo Ronnie Von. Apenas um ano depois da estreia do programa Jovem Guarda na Record, o carioca Ronnie divulgava seu primeiro sucesso: Meu Bem, versão de Girl, dos Beatles. Não foram poucos os que imaginaram que o reinado de Roberto chegara ao fim.

Naquele ano, 1966, Ronnie Von, aos 22 anos, se distinguia: longos cabelos lisos, olhos verdes, formado em Economia, gostava de jazz e música erudita, falava inglês, não usava gírias, tinha acesso a discos importados, sabia se vestir, entendia de vinhos, aviões e se interessou por Beatles porque gostava de cinema nouvelle vague e ouviu que o filme Os Reis do Ié, Ié, Ié era montado como um documentário.

Em seu programa, ele revelou boa parte do que viria a ser o tropicalismo. E também apresentou ao mundo Sônia Braga, sua assistente de palco


Seus movimentos foram observados com cautela. E pânico se instalou quando a TV Excelsior ameaçou roubá-lo para conduzir um programa capaz de bater de frente com o Jovem Guarda. Em vez disso, O Pequeno Mundo de Ronnie Von estreou em outubro de 1966, na própria Record, mas com uma restrição: quem participasse do Jovem Guarda estava proibido de pisar no show “inimigo”, e vice-versa.

“Nunca soube quem deu a ordem”, diz Ronnie. “Tentava falar com Roberto, mas ele não me atendia, os outros artistas também diziam não saber. Era muito difícil montar um bom programa sem elenco. Tive de recorrer a uma banda desconhecida de São Paulo, Os Mutantes.” Com cenários e quadros com influência dos contos de fada, O Pequeno Mundo teve uma boa audiência inicial, além de entrar para a história como o show que revelou boa parte do que viria a ser o tropicalismo. E de apresentar ao mundo Sônia Braga, então assistente de palco.

Antes de morrer, em 2010, aos 86 anos, Paulinho Machado de Carvalho, dono da Record na época, confessou ao historiador Paulo Cesar de Araújo que, mais do que transformar Ronnie em ídolo, sua intenção era mesmo tirá-lo da concorrência: “Não houve uma tentativa deliberada de prejudicá-lo. Na época, o que havia era uma roda-vida e o medo compreensível de secretários e assessores de Roberto de que seu sucesso não durasse ou de que a Record perdesse sua mina de ouro”.

A confusão completa se instalou em maio de 1967 quando, em vez de avançar em suas pretensões de unir rock e música erudita, Ronnie cedeu aos apelos de empresários e produtores e lançou uma marchinha nostálgica, A Praça, sucesso ainda maior do que Meu Bem. “Alguém me disse que vendeu mais exemplares do que o número de toca-discos no Brasil”, recorda o cantor. “Não tinha nada a ver comigo, mas, por ignorância, me deixei levar.”

Pressionado por uma rivalidade marqueteira contra Roberto Carlos e ambições musicais que ele não conseguia realizar, Ronnie resolveu radicalizar: os discos que lançou entre 1968 e 1969 anteciparam o tropicalismo, o rock psicodélico e o progressivo com arranjos dos maestros vanguardistas Rogério Duprat e Damiano Cozzela, participação dos Mutantes, guitarras distorcidas, efeitos de estúdio, vinhetas surreais e temas que poderiam se encaixar em um dos álbuns iniciais do Pink Floyd. “Era uma situação curiosa, uma encruzilhada”, lembra o produtor Manoel Barenbein, responsável pelo álbum Ronnie Von Nº 3, de 1967, e pelo disco Tropicalia ou Panis et Circensis, de 1968. “Ronnie era visto como um artista com grande potencial comercial, só que nós tínhamos ideias não exatamente comerciais.”

Sua carreira de cantor, entretanto, rumou pelo romantismo até ser gradualmente substituída pela de apresentador. Atualmente, ele comanda o programa diário de variedades Todo Seu, na TV Gazeta de São Paulo. “A verdade é que Roberto havia se preparado a vida toda para a música”, diz Paulo César Araújo. “E Ronnie foi pego de surpresa – um dia era um garoto cantando de brincadeira e no outro era um ídolo nacional. O tempo cuidou de dimensionar as vocações.”

O episódio final da “rivalidade” se deu em 1977, quando Roberto, sem avisar, gravou uma música escrita por Ronnie: Pra Ser Só Minha Mulher, um dos grandes sucessos do seu LP de 1977, recentemente regravado pelo pernambucano Otto. “Era um texto lento, quase um adágio de Albinoni”, diz Ronnie. “Hoje, posso me considerar amigo de Roberto”, assegura. “Minha primeira esposa era muito amiga da primeira mulher dele, Nice. Isso acabou com as diferenças. Amo o Dudu (Braga, filho de Roberto) como a um sobrinho. A vida nos uniu.”


Matéria publicada na revista ALFA de julho de 2012.

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